Mulher sentada à mesa

Quem são os gestores da criatividade na periferia?

“Na vida deve haver equilíbrio, entre o trabalho e o ócio criativo”

Sabotage

As pessoas são criativas, umas mais outras menos.

Pela história, as pessoas criativas foram consideradas deuses, gênios e loucas. No entanto, sabe-se que a criatividade não é característica de pessoas privilegiadas, mas que pode ser estimulada e desenvolvida.

A criatividade tem a ver com o ser humano, que é cocriador de tudo quanto há. Pela escassez, pelos problemas, pelas brincadeiras, por ações estratégicas, pela elaboração de novos produtos, para tornar a vida melhor, as pessoas são estimuladas à criatividade.

As crianças expressam muito bem o ser criativo. Elas possibilitam pelo imaginário, criam pela vontade de tornar visível o que surge na tela do pensamento.

Nas periferias brasileiras, as crianças brincam com o que tem. Ludibriam a falta de recursos, na criação dos brinquedos. Imaginam as bonecas enroladas em pano; são professoras e alunos, representando a escola, desconstruindo a metodização: a escola é um espaço da brincadeira e do aprendizado. É muito interessante! Na brincadeira das crianças, os estudantes obedecem e opinam; propõem e criam juntos com a “criança-professora”.

As crianças nas periferias são artistas da própria história vivida. Representam a vida adulta nas relações de paz e violência, sonhando que um dia tudo irá mudar. Pelo imaginário, tentam decifrar o sentido da dor, da ausência, da pobreza, da discriminação…

Na quebrada a criatividade é a essência dos sobreviventes, das pessoas que fazem acontecer, fundamentalmente pela capacidade da improvisação.

As escolas de samba, pela história do carnaval brasileiro, são expressões da criatividade humana nas periferias. A Professora Maria Apparecida Urbano, em seu livro Carnaval  & Samba em evolução na cidade de São Paulo, considera, pelas pesquisas realizadas, que a primeira escola de samba no Rio de Janeiro nasceu na década de 20, a “Deixa Falar”. O sambista Ismael Silva e seu grupo, criadores da “Deixa Falar”, faziam batucadas próximos de uma Escola Normal, diziam: “Se quem ensina as crianças são chamados professores, nós que sabemos tudo de samba, também somos mestres e, portanto, formamos uma Escola de Samba.”

Associando as brincadeiras das crianças, temos o carnaval como evento lúdico em que todos podem brincar. Olhando especificamente para os adultos, identificamos as brincadeiras, expressões de alegrias, as artes e culturas, as tecnologias, os contextos sociais, políticos e econômicos.

Nas escolas de samba o trabalho acontece em meio ao imaginário, ao pensamento criativo. Com a responsabilidade de colocar as escolas nas avenidas, os carnavalescos possibilitam a criatividade para a geração de resultados significativos.

As palavras do Professor Domenico De Masi são esclarecedoras na relação entre trabalho e criatividade: “Quando trabalho, estudo e jogo coincidem, estamos diante daquela síntese exaltante que eu chamo de ‘ócio criativo’”.

Sabotage, com toda sua inteligência e sensibilidade artística, na música Dorobo, faz a provocação exata de que na vida há de se ter o equilíbrio entre o trabalho e o ócio criativo.

“sem medo de queda livre, tá no Guiness

uns preocupados com a alma, outros com Business”

Nas escolas de samba, o carnavalesco é o gestor da criatividade, responsável por possibilitar o pensamento criativo, as ações criativas, as construções criativas, tudo para a entrega de valor real para o público espectador.

O Professor De Masi considera que, de todas as atividades realizadas pelo cérebro, o mercado de trabalho valoriza as atividades criativas.

As pessoas que têm empreendido nas periferias das cidades brasileiras, em empresas classificadas na economia criativa, devem ser entendidas como gestoras da criatividade, porque: 1) atuam com atividades criativas e 2) desejam gerar resultados, resolvendo problemas e satisfazendo as necessidades dos seus públicos, de forma diferenciada e inovadora. Mas também, devem ser consideradas gestoras da criatividade, todos os empreendedores que, mesmo não tendo atividades criativas como as principais em seus negócios, estimulam e possibilitam a aplicação da criatividade na estrutura, nas operações, nas estratégias em busca de diferenciais e inovações.A história do empreendedor social Matheus Cardoso, da empresa Moradigna, retrata muito bem a aplicação da criatividade no negócio tanto no aspecto estrutural, quanto no operacional. O fator fundamental para a geração de resultado significativo para a empresa está em realizar reformas habitacionais para população de baixa renda, com orçamento ajustado para esse público.

Enquanto gestor da criatividade, Matheus Cardoso pensa em facilitar as condições de pagamento dos seus clientes pela linha de crédito socialmente sustentável, resolvendo uma das dores do seu público que é o alto custo das reformas residenciais. Para isso, entregou para organizações financeiras a gestão de crédito, deixando para sua empresa a essência do que sabe fazer: reformas residenciais.Os empreendedores de negócios, sociais, ambientais, culturais com atuação nas periferias das cidades brasileiras são, por essência, gestores da criatividade e é fundamental que assim sejam reconhecidos, porque na escassez de recursos, ou diante de problemas recorrentes, estimulam e possibilitam que a criatividade seja aplicada para a geração de resultados altamente significativos, criando empreendimentos diferenciados ou inovadores.

Referências

DE MASI, Domenico. O ócio criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 2000.URBANO, Maria Apparecida. Carnaval & samba em evolução na cidade de São Paulo. São Paulo: Plêiade, 2006.

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